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terça-feira, 8 de novembro de 2011

Relato de Aula - 14 - Metodologia I

Trabalhos apresentados pelo colegas:

ANTONIO LEAL DE SÁ PEREIRA - Thiago Horacio e Anderson Bouzan




- Existe uma escola Sá Pereira
- Livro dele não foi reeditado
- Teve contato com Dalcroze
- Retornou ao Brasil depois de 17 anos, e foi convidado a lecionar na Escola de Musical de Pelotas - RS.
- Foi professor de piano de Camargo Guarnieri
- Critico muito grande dos métodos de ensino de música da época.
- Defensor dos professores de música, sempre lutando por melhores condições.
- Foi para os EUA e durante 3 meses conheceu o método de ensino desse país.
- Criou o Conservatório Brasileiro de Música.
- Criou vários métodos de ensino de intervalos, figuras ritmicas, baseados nos métodos de Dalcroze.
- Utiliza bandinha ritmica.
- Contribuição da Lucila: Josete Felix, trabalha com musicalização infantil em Jundiai, deve ter tido aulas com Sá Pereira, devido a um método semelhante de ensino de quiálteras.
5 "eu ja disse que"
6 "eu ja disse que não"
7 "eu já disse que não vou"
8 "eu já disse que não vou mais"
- Fazia testes para os alunos ingressarem nas aulas.

CACILDA BORGES BARBOSA - Lucila




- Estudos Brasileiros para Piano Solo
- Nasceu em 1914, faleceu em 2010
- Sofreu de Alzeimer
- É citada na Enciclopédia Brasileira de Música
- Apesar de ser uma ótima pianista, não quiz seguir carreira, se dedicando à composição.
- Foi pioneira com música eletrônica no Brasil, viajando para outros países para pesquisar tecnologias.
- Filosofia de trabalho: "Minha música é o grito de guerra do brasileiro"
- Começava com intervalo de quinta (do-sol), inseria a mediante (do-mi-sol), incluia a supertônica e a subdominante ré e fá, depois a superdominante lá e finalmente a sensível sí.

MARIA DE LOURDES MASCARENHAS VALLIER - Carol




- Decada de 60
- Ingressou na UFRJ
- Mudando do Rio de Janeiro teve que aprender tudo de novo.
- Tomou contato com Robert Pace.
- Métodos de estudo de piano em grupo.
- Cacilda ajudou a fazer as melodias dos livros da Maria de Lourdes.
- Seu método trabalha a criança antes da parte técnica.
- Trabalha com leitura relativa

JURITY DE SOUZA FARIAS - Diogo e Jessica

- Não tem informação sobre ela na internet
- Nasceu no dia 08/06/1910, faleceu em 02/01/1980
- Tinha ouvido absoluto.
- Se formou pelo CBM
- Fundou um conservatório no suburbio do Rio, que futuramente virou faculdade.
- Escreveu o livro chamado "Curso Pré Teórico"
- Queria difundir um modelo de professor, um novo tipo de professor.
- Seu primeiro trabalho foi apresentado numa tese na Escola Nacional de Música.
- Solfejo muito forte, baseados em Dalcroze, através de processos mneumônicos.
- Baseado em frases.
- Contribuição do Teco: essa idéia já era utilizada pela Elisa ...., professora da USP

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Relato de aula - 13 - Metodologia II

- Continuação do método Self

Tocamos novamente utilizando algumas partituras não convencionais de Self. Vários amigos da classe foram reger. Pelo que ví, não é nada fácil!!! Assim como não é fácil pegar de primeira uma grade para orquestra e sair regendo. Achei ótimo essa proposta!

- Iniciação a Paynter

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Relato de aula - 12 - Metodologia II

- Iniciação no métodod George Self

Muito interessantes as partituras não convencionais utilizadas no método Self! Interessante para, inclusive, trabalhar expressividade e regência com a garotada. As partituras tem uma legenda para os tipos de sons: pouca / muita ressonância, forte / fraco, tremolos. Inclusive, trabalhando com várias vozes.

Tocamos duas partituras, utilizando instrumentos de diferentes materiais.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Relato de aula - 10 - Metodologia II

- Continuação de Schafer

Fizemos exercícios muito bacanas. Num deles, deixamos duas pessoas fora da sala. Dividimos a turma em dois grupos e escolhemos dois objetos na sala para os quais cada um dos que ficaram lá fora seriam guiados através de um som. Esse som ficaria mais forte ou mais fraco de acordo com a distância entre a pessoa e o objeto. Como se fosse aquela brincadeira do "tá quente / tá frio".

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Relato de aula - 9 - Metodologia II

- Continuação de Schafer

Escuta da música The Magic Songs, de Murray Schafer.



Redoma sonora: imaginamos uma redoma ao nosso redor, e tínhamos que preenche-la totalmente com sons, de olhos fechados. Quando terminasse de preencher essa redoma, teríamos que parar de emitir os sons. Nossa! Passou muito rápido! Eu ainda estava chegando na metade da minha redoma quando percebi que o restante do grupo já estava terminando. Tratei de acelerar e terminar logo a minha e acabei junto com o grupo. A Enny também achou que passou rápido demais... Pois é! Será que algum dia irei passar pela mesma experiencia que tive com esse exercício no Ateliê da Enny? Foi tão emocionante! Na ocasião, todos terminamos juntos!!! Aquele grupo, de fato, estava muito afinado!

Tapete sonoro: foi uma das atividades mais interessantes e mais conflitantes que já fiz! No início estava muito legal, mas quando o grupo demonstrava que queria parar, alguém continuava e pouco a pouco todos iam voltando também. Teve um momento que eu não voltei mais, e não me curvei à vontade do "grupo". Achei que a atividade durou tempo demais! Depois, no momento de fazer a análise, percebi que vários também sentiram a mesma coisa.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Relato de aula - 8 - Metodologia II

- Continuação de Schafer

Escuta da música Snowforms, de Murray Schafer.



Escuta da paisagem sonora: andar pelo pátio do campus, ouvindo os sons externos durante 15 minutos.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Relato de aula - 7 - Metodologia II

EXTRA! EXTRA! EXTRA!
Hoje teremos atividades com propostas de Murray Shaffer!



Já fiz essa proposta com a Enny no ateliê, mas utilizando folhas de jornal.
Dessa vez, foram usadas folhas de revistas.
Foram várias atividade: passar uma folha sem fazer ruido, explorar os sons obtidos através da folha, mostrar para os demais, reproduzir, classificar esses sons e, finalmente, fazer uma composição em grupo!

terça-feira, 13 de setembro de 2011

O ESPÍRITO CRIADOR E O ENSINO PRÉ-FIGURATIVO

Caros, achei esse texto muito bacana no site da associação Através. Lá tem outros textos bem interessantes: http://www.atravez.org.br/educacao.htm

O ESPÍRITO CRIADOR E O ENSINO PRÉ-FIGURATIVO
H.J.Koellreutter
Três exemplares datilografados com alterações manuscritas do próprio autor (06p.).
[Apresentação em aulas inaugurais da Escola de Música da UFMG (BH)
e da Faculdade Santa Marcelina (SP) ano letivo de l984]


O alicerce do ensino artístico é o ambiente. Um ambiente que possa acender no aluno a chama da conquista de novos terrenos do saber e de novos valores da conduta humana. O princípio vital, a alma desse ambiente, é o espírito criador. O espírito que sempre se renova, que sempre rejuvenesce e nunca se detém. Pois, num mundo em que tudo flui, é o que não se renova um empecilho, um obstáculo.

Sem o espírito criador não há arte, não há educação. É esta uma verdade que os educadores tão facilmente esquecem.

Nem a escola,nem os professores jamais foram perfeitos. Sua eficiência reside na inquietação, que nasce da consciência de não poder satisfazer o ideal.

Numa escola moderna, numa época de profundas mudanças sócio-culturais como a nossa, o professor apresenta aos alunos sempre novos problemas; pois, as perguntas têm mais importância do que as respostas. Numa escola moderna, as soluções não são mecanicamente fornecidas ao aluno, mas sim resultam de um trabalho comum de todos, que dele participam. É que nesse ambiente desaparece o dualismo tradicional professor-aluno.

Já muitas vezes disse eu: em última análise não há maus alunos, e sim maus professores e escolas ruins.A estagnação do movimento, a rotina, a sistematização rígida dos princípios, a proclamação do valor absoluto são a morte da escola. O espírito criador que, sempre duvidando, procura, investiga e pesquisa, é a sua vida.

O objeto a ser estudado nesta Escola, é a arte.

Parece a muitos que, numa escola de arte, esta deva ser estudada e praticada exclusivamente de acordo com os princípios da tradição ou com as teorias formuladas em tratados e métodos.

É opinião geral que um programa de ensino bem organizado, baseado numa determinada ordem pré-estabelecida das disciplinas leva ao aluno a adquirir o que ele necessita para o exercício da profissão, por ele espontaneamente escolhida. E ninguém preocupa-se com o resto. A escola torna-se um agregado de cursos estanques, mais ou menos bem dados, onde o professor repete doutoral, e fastidiosamente, a lição já repetida nos anos anteriores, ou treina seus discípulos como se amestram animais de circo pela repetição indefinida do mesmo ato, discípulos ansiosos para aprender a técnica de um instrumento p.s., a fim de poderem transmitir uma mensagem artística.

Essa situação, apesar de ser uma realidade, essa concepção das coisas, apesar de ser muito difundida, extingue no aluno o que nele houver de criativo.

Realmente, é incontornável: só poderá seguir a carreira artística, quem se especializar; quem aprender algum artesanato até seu domínio incontestável. É por isso que devemos decidir -não imediatamente, mas o quanto antes- qual será o caminho a seguir e qual a disciplina a ser estudada a fundo.

Todos os esforços, no entanto, serão vãos, para a real compreensão das coisas da arte, tornando-se, na prática, mera rotina, quando não relacionarmos -tanto os alunos, quanto os professores- os nossos conhecimentos com o todo. Com o todo da arte, com o todo de nossa existência, com o todo do meio-ambiente e com o todo da sociedade em que atuamos. Pois, é esse todo que nos estimula, que como germe, vive em nós desde o princípio; o todo que é a vida espiritual, o espírito criador, propriamente dito.

O caminho é o ensino pré-figurativo segundo o fato de que a função primordial da educação já não pode adaptar o jovem a uma ordem existente, fazendo com que assimile os conhecimentos e o saber destinados a inseri-lo em tal ordem -como procederam as gerações anteriores-, mas, pelo contrário, pode ajudá-lo a viver num mundo que se transforma em ritmo, cada vez mais acelerado, tornando-o assim capaz de criar o futuro e de inventar possibilidades inéditas.

Entendo por ensino pré-figurativo um método de delinear antecipadamente o que, provavelmente, sucederá no futuro, ou seja, figurar imaginando. Entendo por ensino pré-figurativo um método de delinear aquilo que ainda não existe, masque há de existir, ou pode existir ou se receia que exista.

Este método de ensino, naturalmente, não rejeita os métodos tradicionais, mas sim, os complementa. O caminho é a ampliação, o alargamento do ensino tradicional pelo ensino pré-figurativo.

Por isso, alunos desta Escola, apelo a vocês: deixem-se levar pela consciência das relações entre as coisas -é que a ciência moderna comprovou que não há objetos ou fatos, mas sim, exclusivamente relações-, deixem-se levar pela consciência destas relações, pela verdade de que nenhuma atividade intelectual pode ser isolada. Deixem-se levar pelo verdadeiro interesse e não apenas pela simples curiosidade. Deixem-se levar pelos fundamentos essenciais dos nossos conhecimentos e pela força da problemática que nos envolve e que dá sentido à atuação do artista de nosso tempo.

Assim sentirão o pensamento humano em sua unidade, cuja conscientização é, tão importante na vida intelectual contemporânea.

O espírito criador não permite -hoje menos que nunca- que os vários ramos da educação artística sejam ensinados independentemente, uns dos outros, sem relações entre si.

É verdade que em cada ramo da educação artística necessita-se do homem que se especializa. Mas é indispensável, que não lhe faltem o conhecimento do todo e a compreensão das inter-relações existentes entre as coisas, entre os homens e suas atividades.

Esse todo, porém, do que eu falo, e cuja conscientização me parece tão importante, não existe pronto em nenhuma parte. Nem nas diversas áreas da atividade artística. Nem nos cursos da escola. Esse todo vive em toda parte através de tensões permanentes que sempre se renovam.

A mudança do conteúdo e dos programas de uma educação que tenda essencialmente ao questionamento crítico do sistema e à sua reprodução, que tenda ao despertar e ao desenvolvimento da criatividade e não à adaptação e à assimilação, exige:

1. que as culturas não-ocidentais tanto quanto as originárias, aborígenes ainda existentes neste planeta e, naturalmente, também no Brasil, sejam levadas em conta tanto quanto a ocidental;
2. que as artes e a estética, em particular, como reflexão sobre o ato criador encontrem lugar tão eminente quanto o das ciências das disciplinas tecnológicas;
3. que a prospectiva como reflexão sobre os fins, os valores e o sentido do futuro em vias de nascer, e como tomada de consciência de nossas responsabilidades- temática mais importante do ensino pré-figurativo-, ocupe espaço tão amplo quanto o do passado.

Pois só um conhecimento vivido das culturas não-ocidentais e originárias, isto é, um verdadeiro "diálogo das civilizações e culturas", permite dar resposta às indagações de hoje, em escala planetária, integradora. Permite realizar a grande reviravolta cultural necessária, tornando relativo o que se convencionou chamar ciências e artes, situando as duas áreas no contexto infinitamente mais vasto de uma sabedoria, na qual nossas relações com a natureza não são apenas manipulação ou de conquista, mas de amor e participação: uma abordagem, em que o relacionamento de um com o outro e com a sociedade não é o de um individualismo, mas de comunidade, onde nossas ligações com o futuro não são definidas por uma simples extrapolação do presente e do passado, mas por ruptura, superação e transcendência: a criação de um futuro realmente novo.

O ensino pré-figurativo das artes é parte de um sistema de educação que incita o homem a se comportar perante o mundo, não como diante de um objeto, mas como o artista diante de uma obra a criar.

A prospectiva, finalmente, entendida não no sentido positivista da futurologia, como simples previsão tecnológica dos meios a partir do presente e do passado, mas como reflexão sobre os fins, exame crítico e questionamento dos objetivos e como antecipação, invenção de fins e de novos projetos.

O ensino pré-figurativo, assim como eu o concebo, forçosamente implica na educação permanente do homem moderno, ou seja, a reciclagem constante do corpo docente, reciclagem que se tornou necessária pela aceleração científica, ou seja, o desenvolvimento tão rápido dos conhecimentos e das técnicas, que não é, mais possível bloquear -no começo da vida- a formação dos homens pela escola e o aprendizado, tornando-se indispensáveis reciclagens freqüentes durante todo o período da vida ativa.

A nossa Escola, uma escola de arte, vive nas tensões e controvérsias das idéias, através das quais resplandece a unidade latente de todas as concepções estéticas. A assimilação dessa unidade leva-nos a penetrar na parte mais transcendental da arte: o espírito criador faz crescer as tensões e leva-as a um movimento ininterrupto e a uma ação tremenda. Deixá-las enfraquecer e disfarçá-las em conceitos definitivos e verdades aparentemente absolutas significaria a ruína do espírito criador.

Mas o todo possui conteúdo somente na profundeza e na extensão das experiências desde que eu entendo por experiência tudo, que pode tornar-se presente ao homem.

Nas artes, a própria vida espiritual é o fundamento da experiência. O espírito realiza-se através de sua concretização. E nós compreendemos o conteúdo da mesma, na medida em que vivemos entregues à meditação ou sob o influxo da paixão artística, sendo indiferente que participemos das coisas da arte ou que sintamos sua dolorosa falta. Em ambos os casos, a concentração e a entrega absoluta ao ideal levam à penetração no conteúdo da arte.

O que seria da arte, se a sua beleza não fosse a inquietação fecundada vida espiritual? Se não se sentissem nos estudos, as divergências da interpretação, das teorias e dos princípios estéticos? O que seria da história da arte, se faltasse uma realidade artística verdadeira?

Como seria possível compreender o pensamento dos grandes mestres sem ter passado,de uma ou outra maneira, pela problemática que constitui a vida dos mesmos? Por isso, a seriedade da vida pessoal, o rigor, a auto-disciplina, a intolerância consigo mesmo são as condições de um estudo profundo e eficiente.

Nas artes surgem as experiências através de uma intensa vida interior, através do poder da sensibilidade e da audição no silêncio.

Experiência não "é" simplesmente.É somente na medida em que o nosso espírito for criador que fazemos experiências.

O traço fundamental da experiência artística é a compreensão, a compreensão do todo, da dialética das relações de tudo com tudo. Só se integrando na problemática de nossa existência e vivendo na interdependência das coisas, esplende o espírito criador.

Estudantes: não pensem que assiduidade e aplicação ao estudo, a simples aquisição ou compilação de conhecimentos para o exame, a profissão e a carreira, sejam o suficiente. Sem dúvida, aplicação nos estudos, aplicação absoluta é conditio sine qua non para a vida intelectual. Mas não confundam esta com a pseudo-aplicação e o pseudo-interesse que tanto se observam entre os alunos que freqüentam as escolas de arte. Conjecturas gerais sobre o todo não significam a participação no mesmo.

Viver no desperdício do mais ou menos não é compreensão. Petiscar de tudo, não é largueza de horizontes. O verdadeiro estudo exige a realização clara e concreta das coisas, a concentração numa só coisa dentro da amplidão ilimitada do universal.

Eis o que distingue a nossa escola, uma escola de nível superior, das outras escolas de música: a consciência da imperfeição de tudo e de todos, a consciência do problema que pesa sobre cada um, o problema de escolher livremente sua tarefa, e a recusa de programas de ensino imutáveis.

E natural que a constante preocupação com uma problemática que sempre se renova e, principalmente, que encerra objeto e sujeito, isto é, envolve professor e aluno, artista, obra de arte e consumidor, problemática viva, sem a qual o espírito ,criador desfaleceria, não deixa de dar margem à dúvida.

A realidade da escola é sempre demasiadamente afastada do ideal. Nós, como professores, vocês como alunos, todos falhamos demais. O fato porém, de reconhecer isso, aproximar-nos-á, cada vez mais da verdade. Somente quem não sente suas próprias falhas, quem não sente seus defeitos, seus fracassos, esquiva-se do espírito criador.

Quando, há 50 anos atrás, matriculado nos cursos da Academia Estadual de Música em Berlim, pela primeira vez atravessei o limiar daquele famoso instituto, não deixei de sentir o tremor de profundo respeito pela tradição e pelas coisas da arte. Foi lá que ouvi ensinar os compositores Paul Hindemith e Kurt Thomas, o violoncelista Emanuel Feuermann, o pianista Edwin Fischer, o regente Wilhelm Furtwängler e muitos outros, cujos nomes entraram na história da música.

Muitas veses, com a arrogância da juventude, encontrei em cada um algo para criticar. Com a perspicácia da mocidade, talvez não sempre sem razão. Mas, ao mesmo tempo, fiquei comovido, impressionado e até fascinado com o que os meus mestres tinham a dizer e o que nunca teria compreendido sem os seus ensinamentos. Com gratidão lembro-me dos meus professores, cujos exemplos foram decisivos para a minha carreira. É que também a crítica que rejeita, é fundamento da cultura.

Desejo, que vocês ajam da mesma maneira, que nos critiquem severamente, mas que essa crítica não deixe de ter sua raiz na idéia universitária de uma escola de ensino superior e que ela nasça do espírito criador.

Desejo que vocês façam tudo melhor que nós, e que ao mesmo tempo iniciem, num trabalho incansável, o desenvolvimento consciente de seu poder intelectual.

Não importa, se vocês nos reprovam, a nós que nos esforçamos para preservar a continuidade da tradição. Importa, porém, que encontrem um caminho para penetrar mais a fundo no espírito dessa mesma tradição.

O espírito criador não é um dom da natureza. E um presente que recebem aqueles que a ele se conservam abertos. O trabalho intelectual, a autocrítica, a compreensão de tudo que os homens criam, visam em última análise cultivar em nós uma vida intensa, que nos torna homens livres.

Deve ser a nossa Escola um laboratório, onde se cultiva o diálogo entre professores e alunos, onde se procura penetrar em tudo, elucidar e objetivar tudo que pode ser apreendido. Desejo que a nossa Escola dê a impressão de que toda a vida é uma grande experiência, um material a ser estudado. Assim a nossa Escola torna-se atual, integrada na realidade contemporânea. É verdade que o espírito criador deve ter suas raízes na tradição, nos tempos passados, em mundos estranhos portanto, mas jamais ele deve isolar-se e afastar-se do presente real. Assim ele despertará forças para elucidar o presente e para contribuir resolutamente para a construção do futuro da humanidade.

COMENTÁRIO

O convívio com Koellreutter, seja no âmbito discente ou no pessoal, é sempre uma experiência radical. Questionador contumaz, Koellreutter incita o interlocutor à reflexão crítica. É clássica sua introdução a um curso quando se vê diante de novos alunos: "questionem tudo o que os livros dizem, questionem tudo o que o professor diz e questionem tudo o que vocês pensam. Perguntem sempre PORQUE". Esta proposição, de início tida como uma brincadeira, se torna ao longo de seus cursos uma meta ideológica que, nem sempre, é bem compreendida. Muitos alunos, acostumados à uma atitude passiva diante de um professor, não toleram o esforço necessário para essa nova atitude. Mais que tudo, Koellreutter ensina a pensar.

Como professor, Koellreutter recusa sempre o papel de informador. Prefere o de "animador" mas, quase sempre, atua como "desequilibrador". Quando um professor age como um informador ele espera alunos ouvintes, passivos. Quando, age como "animador" espera alunos pesquisadores, ativos. Mas os poucos que conseguem agir conscientemente como "desequilibradores" esperam alunos corajosos, criativos, capazes de re-equilibrar-se, crescendo como pessoas.

Talvez por isso Koellreutter desperte sentimentos tão polares entre seus alunos: de um lado a rejeição absoluta; do outro a quase devoção.

Como nos diz R.Barthes, em sua Aula, o professor ainda sem experiência ensina exatamente aquilo que sabe. Mais experiente, o professor ousa, desafia, incita,"acaba por ensinar o que ele nãosabe"; os que setornam "mestres" são capazes de ensinar o aluno a "des-aprender", a remover as inumeráveis camadas de verniz que a vida passa sobre os nossos sentidos e emoções, para que a "essência" criativa de cada um possa se manifestar novamente. Barthes conclui sua Aula dizendo que sapientia significa: “nenhum poder, um pouco de saber, o máximo de sabor". Koellreutter pertence última a essa categoria.

O texto que se segue (proferido como aula inaugural) é um exemplo vivo dessas considerações.
Já no título O Espírito criador e o ensino pre-figurativo, Koellreutter traça a linha mestra do texto e mostra sua forma de atuar como pedagogo.

Porque "pre-figurativo"? Trata-se de uma questão crucial no trabalho do mestre. Figurativo é um termo próprio do domínio das artes plásticas e diz respeito a uma forma de "manifestação artística, comum a diferentes épocas, culturas e correntes estéticas, e que se manifesta pela preocupação de representar formas acabadas da natureza" (Aurélio). Numa pintura figurativa, por exemplo, o pintor procura representar algo perceptivamente pré-estabelecido -ele pinta uma montanha, uma casa, uma pessoa, um animal, etc. Por outro lado, numa obra não-figurativa, o pintor sugere, circunscreve, delineia mas não "afirma" formas pré-estabelecidas. Tomando por empréstimo esse sentido, Koellreutter propõe um ensino artístico pré-figurativo, aberto, livre de pré-concepções, onde atue o espírito criador. Como ele nos diz no texto: "o ensino pré-figurativo é um método de delinear aquilo que ainda não existe, mas que há de existir, ou pode existir, ou se receia que exista. Este método de ensino, naturalmente, não rejeita os métodos tradicionais, mas sim os complementa.”

Gostaria de destacar alguns trechos que, a meu ver, traduzem claramente esta proposta:

O alicerce do ensino artístico é o ambiente. Um ambiente que possa acender no aluno a chama da conquista de novos terrenos do saber e de novos valores da conduta humana. O princípio vital desse ambiente, é o espírito criador. O espírito que sempre se renova, que sempre rejuvenesce e nunca se detém.
.A ... eficiência da escola reside na inquietação, que nasce da consciência de não poder fazer o ideal.
Numa escola moderna, as soluções não são mecanicamente fornecidas ao aluno, mas sim resultam de um trabalho comum de todos que dele participam.
A estagnação do movimento, a rotina, a sistematização rígida dos principios, a proclamação do valor absoluto são a morte da escola, O espírito criador que sempre duvida, procura, investiga e pesquisa, e a sua vida.
Todos os esforços... serão vãos, para a real compreensão das coisas da arte,... quando não relacionarmos os nossos conhecimentos como todo,.. Com o todo da arte, com o todo de nossa existência, com o todo do meio-ambiente e com o todo da sociedade em que atuamos.
O ensino pré-figurativo das artes é parte de um sistema de educação queincita homema se comportar perante o mundo, não como diante de um objeto, mas como artista diante de uma obra a criar.
... uma escola de arte vive nas tensões e controvérsias das idéias, através das quais resplandece a unidade latente de todas as concepções estéticas. A assimilação dessa unidade leva-nos a penetrar na parte mais transcendental da arte: o espírito criador faz crescer as tensões e leva-nos a um movimento ininterrupto e a uma ação tremenda. Deixá-las enfraquecer e disfarçá-las em conceitos definitivos e verdades aparentemente absolutas significaria a ruína do espírito criador.

O que seria da arte, se sua beleza não fosse a inquietação fecunda da vida espiritual?
O espírito criador não é um dom da natureza. É um presente que recebem aqueles que a ele se conservam abertos.
Para mim e para tantos outros foi um privilégio usufruir do convívio com o mestre Koellreutter. Em minhas atividades profissionais, seja como musicista seja como médico, Koellreutter foi um marco divisor: antes e depois dele. Espero que a leitura do texto gerador deste comentário, possa proporcionar aos que não tiveram esse privilégio uma oportunidade de refletir e compartilhar da visionária sabedoria do mestre.

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João Gabriel Marques Fonseca, Musicista, Médico e Professor da Faculdade de Medicina e da Escola de Música/UFMG.

Relato de aula - 6 - Metodologia II

Assistimos ao espetáculo "Fim de Feira", de Koelrreutter e Teca Alencar. Baseado nos adagios das feiras populares, essa peça traduz de forma poética esse ambiente.

O vídeo também mostrou momentos dos ensaios. Achei bem bacana o processo de criação em conjunto.
Também assistimos a um trecho do documentário "Koellreutter e a Música Transparente".

- Qual NÃO deve ser o papel da educação?
- Contextualizar o tradicional com a vanguarda.
- O artista moderno é um ser que vive as coisas do espírito.
- O importante da Educação Musical é desenvolver capacidades para qualquer profissão.
- Somos incapazes de penetrar realmente em vivências de culturas estranhas.
- Acrono: tempo diferente, que depende da emoção das pessoas.
- Caos inteligível!

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Relato de aula - 5 - Metodologia II

Hoje assistimos um vídeo sobre Koellreutter.
Aliás, as aulas sobre Koellreutter são sensacionais!
Năo há como falar que é uma aula sobre música, ou sobre uma metodologia de ensino. Pelo que vejo, assim como as aulas COM Koellreutter, as aulas SOBRE ele săo mesclas de música, filosofia, cięncias, história, política, pedagogia... Quem teve a oportunidade de conviver com esse grande mestre se modifica a tal ponto que năo tem como năo passar, transmitir, contagiar a todos o mesmo espírito.

Opa! De repente me lembrei de Paulo Freire também!!! Percebo que os grandes mestre se tornam grandes e admirados por isso: conseguem ter essa visăo holistica das coisas.

Voltando para a aula!

"O que tem para ouvir nessa música?"
A música comtemporanea incorporou a incerteza do mundo.
Com o advento da Teoria da Relatividade e as descobertas da Fisica Quantica, foi possível perceber a imprecisăo do mundo em que vivemos.

Os criadores săo diferentes dos compositores. Eles desafiam, transgridem, chocam, estrapolam, contestam! E tudo que é novo causa certa estranheza. Demora um certo tempo para que as pessoas consigam digerir novas linguagens e propostas. Me lembro até hoje a sensaçăo que tive quando ouvi Pierrot Lunaire, de Schoenberg. Foi a primeira vez que ouvi uma música atonal! Me tirou do eixo! Parecia que eu iria cair da cadeira!!! Fiquei sem ponto de referęncia! Ainda hoje tenho essa sensaçăo, mesmo que bem mais amena.

Ensino pré-figurativo
Koellreutter propôs o ensino que chamou de pré-figurativo: você năo vai ensinar, mas sim criar uma situaçăo para a criaçăo.
"Ensinar a teoria musical , a harmonia e o contraponto como princípios de ordem indispensáveis e absolutos é pós-figurativo. Indicar caminhos para a invenção e a criação de novos princípios de ordem é pré-figurativo.
Ensinar o que o aluno pode ler em livros ou enciclopédias é pós-figurativo. Levantar sempre novos problemas e levar o aluno à controvérsia e ao questionamento de tudo o que se ensina é pré-figurativo."
Trechos do livro "Koellreutter Educador: o humano como objetivo da educação musical"
Outros pontos:
- Importância da conscięncia
- Relaçăo inter-humana -> escuta do grupo
- 1941: Superaçăo da forma de sonata tradicional

Frases da aula:
"Educaçăo musical é educaçăo"
"Ser humano: o mais importante do ensino musical"
"Música a serviço da personalidade"
"A música é uma arte temporal"

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Relato de aula - 4 - Metodologia II

Hans-Joachim Koellreutter

Hoje praticamos um exercício chamado "Fases de Tamboriladas".

Foi muito bacana! Pesquisamos tudo o que era possível tamborilar na sala de aula. Depois, cada um mostrou sua pesquisa. Achei muito bacanas os sons encontrados pela turma! Principalmente utilizar as baquetas nas grades existentes embaixo das cadeiras.

Em seguida, fomos convidados a ir a frente do grupo para reger e montar uma composição, inclusive utilizando outros intrumentos como xilofones e metalofones.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Relato de aula - 3 - Metodologia II

Hans-Joachim Koellreutter

"A música é uma arte do tempo"
(Enny Parejo)

Prenância: se destacam de uma estrutura.
Gestalt: percepção de uma estrutura como um todo, no mesmo momento. Configurações pluridimensionais.

Obra 1941, de Koellreutter: inovação da forma sonata / estética do impreciso e paradoxal.

Obs - Forma sonata:
          * Introdução - exposição do tema;
          * Desenvolvimento;
          * Reexposição.

Música atonal: esse "a" tem o sentido de transcendência e não de negação.
Apresenta os motivos principais (gestalts). Essas composições são diálogos entre as gestalts.
São necessários filtros conceituais para entender.
"Mas: é sempre água, mas as ondas sempre dão uma forma diferente".

Antítese: música de Haydn, pois são previsíveis.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Relato de aula - 2 - Metodologia II

Hans-Joachim Koellreutter

Carta Aberta aos Músicos e Críticos do Brasil
Por Mozart Camargo Guarnieri

Considerando as minhas grandes responsabilidades, como compositor brasileiro, diante de meu povo e das novas gerações de criadores na arte musical, e profundamente preocupado com a orientação atual da música dos jovens compositores que, influenciados por idéias errôneas, se filiam ao Dodecafonismo – corrente formalista que leva à degenerescência do caráter nacional de nossa música – tomei a resolução de escrever esta carta-aberta aos músicos e críticos do Brasil.

Através deste documento, quero alertá-los sobre os enormes perigos que, neste momento, ameaçam profundamente toda a cultura musical brasileira, a que estamos estreitamente vinculados.

Esses perigos provêm do fato de muitos dos nossos jovens compositores, por inadvertência ou ignorância, estarem se deixando seduzir por falsas teorias progressistas da música, orientando a sua obra nascente num sentido contrário ao dos verdadeiros interesses da música brasileira.

Introduzido no Brasil há poucos anos, por elementos oriundos de países onde se empobrece o folclore musical, o Dodecafonismo encontrou aqui ardorosa acolhida por parte de alguns espíritos desprevenidos.

À sombra de seu maléfico prestigio se abrigaram alguns compositores moços de valor e grande talento, como Cláudio Santoro e Guerra-Peixe, que felizmente, após seguirem esta orientação errada, puderam se libertar dela e retornar o caminho da música baseada no estudo e no aproveitamento artístico-científico do nosso folclore. Outros jovens compositores, entretanto, ainda dominados pela corrente dodecafonista (que desgraçadamente recebe o apoio e a simpatia de muitas pessoas desorientadas), estão sufocando o seu talento, perdendo contato com a realidade e a cultura brasileiras, e criando uma música cerebrina e falaciosa, inteiramente divorciada de nossas características nacionais.

Diante dessa situação que tende a se agravar dia a dia, comprometendo basilarmente o destino de nossa música, é tempo de erguer um grito para deter a nefasta infiltração formalista e antibrasileira que, recebida com tolerância e complacência hoje, virá trazer, no futuro, graves e insanáveis prejuízos ao desenvolvimento da música nacional do Brasil.

É preciso que se diga a esses jovens compositores que o Dodecafonismo, em Música, corresponde ao Abstracionismo, em Pintura; ao Hermetismo, em Literatura, ao Existencialismo, em Filosofia, ao Charlatanismo, em Ciência.

Assim, pois, o dodecafonismo (como aqueles e outros contrabandos que estamos importando e assimilando servilmente) é uma expressão característica de uma política de degenerescência cultural, um ramo adventício da figueira-brava do Cosmopolitismo que nos ameaça com suas sombras deformantes e tem por objetivo oculto um lento e pernicioso trabalho de destruição do nosso caráter nacional.

O dodecafonismo é, assim, de um ponto de vista mais geral, produto de cultura superadas, que se decompõem de maneira inevitável, é um artifício cerebralista, antinacional, antipopular, levado ao extremo; é química, é arquitetura, é matemática da música – é tudo o que quiserem – mas não é música! E um requinte de inteligências                                                 

Que essa pretensa música encontre adeptos no seio de civilizações e culturas decadentes, onde se exaurem as fontes originais do folclore (como é o caso de alguns países da Europa); que essa tendência deformadora deite as suas raízes envenenadas no solo cansado de sociedades em decomposição, vá lá! Mas que não encontre acolhida aqui na América nativa e especialmente em nosso Brasil, onde um povo novo e rico de poder criador tem todo um grandioso porvir nacional a construir com suas próprias mãos! Importar e tentar adaptar no Brasil essa caricatura de música, esse método de contorcionismo cerebral antiartístico, que nada tem de comum com as características especificas de nosso temperamento nacional e que se destina apenas a nutrir o gosto pervertido de pequenas elites de requintados e paranóicos, reputo um crime de lesa-Pátria! Isso constitui além do mais, uma afronta à capacidade criadora, ao patriotismo e à inteligência dos músicos brasileiros.

O nosso país possui um folclore musical dos mais ricos do mundo, quase que totalmente ignorado por muitos compositores brasileiros que, inexplicavelmente, preferem carbonizar o cérebro para produzir música segundo os princípios aparentemente inovadores de uma estética esdrúxula e falsa.

Como macacos, como imitadores vulgares, como criaturas sem princípios, preferem importar e copiar nocivas novidades estrangeiras, simulando, assim, que são ‘originais’, ‘modernos e ‘avançados’ e esquecem, deliberada e criminosamente que temos todo um amazonas de música folclórica – expressão viva do nosso caráter nacional – à espera de que venham também estudá-lo e divulgá-lo para engrandecimento da cultura brasileira. Eles não sabem ou fingem não saber que somente representaremos um autêntico valor, no conjunto dos valores internacionais na medida em que soubermos preservar e aperfeiçoar os traços fundamentais de nossa fisionomia nacional em todos os sentidos.

Os nossos compositores dodecafonistas adotam e defendem essa tendência formalista e degenerada da música porque não se deram ao cuidado elementar de estudar os tesouros da herança clássica, o desenvolvimento autônomo da música brasileira e suas raízes populares e folclóricas. Eles, certamente, não leram estas sábias palavras de Glinka: “a música, cria-a o povo, e nós, os artistas, somente a arranjamos...” (que vale para nós também) – e muito menos meditaram nesta opinião do grande mestre Honegger sobre o dodecafonismo: “...as suas regras são por demais ingenuamente escolásticas. Permitem ao NÃO MÚSICO escrever a mesma música que escreveria um indivíduo altamente dotado...”

Mas o que pretende, afinal essa corrente antiartística que procura conquistar principalmente os nossos jovens músicos, deformando a sua obra nascente?

Pretende, aqui no Brasil, o mesmo que tem pretendido em quase todos os países do mundo: atribuir valor preponderante à forma; despojar a música de seus elementos essenciais de comunicabilidade; arrancar-lhe o conteúdo emocional, desfigurar-lhe o caráter nacional; isolar o músico (transformando-o num monstro de individualismo) e atingir o seu objetivo principal’ que é justificar uma música sem Pátria e inteiramente incompreensível para o povo.

Como todas as tendências de arte degenerada e decadente, o dodecafonismo, com suas facilidades, truques e receitas de fabricar música atemática, procura menosprezar o trabalho criador do artista, instituindo a improvisação, o charlatanismo, a meia-ciência  como substitutos da pesquisa, do talento, da cultura, do aproveitamento racional das experiências do passado, que são as bases para a realização da obra de arte verdadeira.

Desejando, absurdamente, pairar acima e além da influência de fatores de ordem social e histórica, tais como o meio, a tradição, os costumes e a herança clássica; pretendendo ignorar ou desprezar a índole do povo brasileiro e as condições particulares do seu desenvolvimento, o dodecafonismo procura, sorrateiramente realizar a destruição das características especificamente nacionais da nossa música, disseminando entre os jovens a ‘teoria’ da música de laboratório criada apenas com o concurso de algumas regras especiosas, sem ligação com as fontes populares.

O nosso povo, entretanto, com aguda intuição e sabedoria, tem sabido desprezar essa falsificação e o arremedo de música que conseguem produzir. Para tentar explicar a sua nenhuma aceitação por parte do público, alegam alguns dos seus mais fervorosos adeptos que ‘o nosso país é muito atrasado’, que estão ‘escrevendo música para o futuro’ ou que ‘o dodecafonismo não é ainda compreendido pelo povo porque a sua obra não é suficientemente divulgada...’

É necessário que se diga, de uma vez por todas, que tudo isso não passa de desculpa dos que pretendem ocultar aos nossos olhos os motivos mais profundos daquele divorcio.

Afirmo, sem medo de errar, que o dodecafonismo jamais será compreendido pelo grande público porque ele é essencialmente cerebral, anti-popular, anti-nacional e não tem nenhuma afinidade com a alma do povo.

Muita coisa ainda precisaria ser dita a respeito do Dodecafonismo e do pernicioso trabalho que seus adeptos vêm desenvolvendo no Brasil, mas urge terminar esta carta que já se torna longa demais.

E ela não estaria concluída, se eu não me penitenciasse publicamente perante o povo brasileiro por ter demorado tanto em publicá-la. Esperei que se criassem condições mais favoráveis para um pronunciamento coletivo dos responsáveis pela nossa música a respeito desse importante problema que envolve intenções bem mais graves do que, superficialmente se imagina. Essas condições não se criaram e o que se nota é um silêncio constrangido e comprometedor. Pessoalmente, acho que o nosso silêncio, neste momento, é conivência com a contrafação dodecafonista. E esse o motivo porque este documento tem um caráter tão pessoal.

Espero, entretanto, que os meus colegas compositores, intérpretes, regentes e críticos manifestem, agora, sinceramente, a sua autorizada opinião a propósito do assunto. Aqui fica, pois, meu apelo patriótico. 

São Paulo, 7 de Novembro de 1950.  Camargo Guarnieri.

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Carta Aberta aos Músicos e Críticos do Brasil
Resposta a Camargo Guarnieri
Por Hans Joachim Koellreutter 

Consciente de minhas responsabilidades perante a nova geração de compositores, em especial diante daqueles que me foram confiados, e perante o país a cujo desenvolvimento cultural venho dedicando todos os meus esforços profissionais, movido ainda pelo profundo respeito que tenho pelo espírito criador do homem e pela inabalável fé na liberdade de pensamento, venho responder, de público, à ‘Carta Aberta aos músicos e críticos do Brasil’ que o sr.Camargo Guarnieri fez publicar, com a data de 7 de novembro de 1 950. Vejamos de início o que é o tão falado Dodecafonismo, atacado pelo sr. Camargo Guarnieri com tanta veemência e com uma terminologia pouco apta a um documento artístico. Dodecafonismo não é um estilo, não é uma tendência estética, mas sim o emprego de uma técnica de composição criada para a estruturação do atonalismo, linguagem musical em formação, lógica conseqüência de uma evolução e da conversão das mutações quantitativas do cromatismo em qualitativas, através do modalismo e do tonalismo. Não tendo, por um lado, como toda outra técnica de composição — outro fim a não ser o de ajudar o artista a expressar-se e, servindo, por outro lado, à cristalização de qualquer3  tendência estética, a técnica dodecafônica garante liberdade absoluta de expressão e a realização completa da personalidade do compositor. Ela não é mais nem menos ‘formalista’, ‘cerebralista’, ‘antinacional’ ou ‘anti-popular’ que qualquer outra técnica de composição baseada em contraponto e harmonia tradicionais. E errôneo, portanto, o conceito de que o Dodecafonismo ‘atribua valor preponderante à forma’ ou ‘despoje a música de seus elementos essenciais de comunicabilidade’; que ‘lhe arranque o conteúdo emocional’; que ‘lhe desfigure o caráter nacional’ e que possa ‘levar à degenerescência do sentimento nacional’.

O que leva ‘à degenerescência do sentimento nacional’, o que se torna um ‘vício de semimortos’ e ‘um refúgio de compositores medíocres’ e não contribui em absoluto para a evolução cultural de um povo, pelo contrário, é fonte de sucessos fáceis e de improvisações, é o nacionalismo em sua forma de adaptação de expressões vernáculas. Essa tendência, tão comum entre nós, é responsável por uma música que lembra o estado pré-mental de ‘sensação’, próprio do homem primitivo e à criança, e que, com as suas fórmulas gratuitas emprestadas ao colorismo russo-francês, não consegue encobrir sua pobreza estrutural e a ausência de potência criadora. O verdadeiro nacionalismo é um característico intrínseco do artista e de sua obra. Quando, porém, essa tendência se reduz a uma atitude apenas, leva tanto ao formalismo quanto qualquer outra corrente estética. – Entende-se por formalismo a conversão da forma artística numa espécie de auto-suficiência. Ao contrário do que afirma o sr.Camargo Guarnieri, o que me parece alarmante é a situação de estagnação mental em que vive amodorrado o meio musical brasileiro, de cujas instituições de ensino, com seu programa atrasado e ineficiente, não tem saído nestes últimos anos nenhum valor representativo. Eis a expressão, essa sim, de uma ‘política de degenerescência cultural’ e não a ânsia4 estética, o trabalho sincero dos jovens dodecafonistas brasileiros que lutam corajosamente por um novo conteúdo e uma nova forma e que jamais desprezaram o folclore de sua terra, estudando-o e assimilando-o em sua essência. Esses jovens dodecafonistas brasileiros desbravam as regiões do inexplorado à procura de uma nova realidade na arte. Escrevem música que não admite outra lógica a não ser a que nasce da própria substância musical. E verdade que essa música, apesar de toda sua perfeição estrutural, demonstra algo de instável e fragmentário, característicos de uma crise que resulta do conflito entre forma e conteúdo, a fonte mais importante do desenvolvimento e do progresso nas artes. E é justamente nisso, no alto grau de veracidade e no realismo de sua arte, que consiste o valor humano e artístico do trabalho desses jovens compositores. Quanto aos conceitos finais dos últimos parágrafos da Carta Aberta do sr.Camargo Guarnieri não merecem resposta por serem incompetentes e tendenciosos. Em lugar de demagogia falaciosa de sua carta, o sr. Camargo Guarnieri deveria ter feito uma exposição objetiva, uma análise serena e limpa dos problemas relativos aos jovens musicistas do Brasil, se é que realmente isso o interessa. O nacionalismo exaltado e exasperado que condena cegamente e de maneira odiosa a contribuição que um grupo de jovens compositores procura dar à cultura musical do país, conduz apenas ao exacerbamento das paixões que originam forças disruptivas e separam os homens. A luta contra essas forças que representam o atraso e a reação, a luta sincera e honesta em prol do progresso e do humano na arte é a única atitude digna de um artista.

Documento divulgado em vários jornais do país. Folha da Tarde, Porto Alegre, 13/01/1951

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Relato de aula - 1 - Metodologia II

Hans-Joachim Koellreutter (1915-2005)

Acronóstico!

Hoje.
Amanhã?
Nunca...
Sempre!


Já acabou?
Ousados são 
Aqueles que
Conheceram (verdadeiramente) o
Homem da
Inovação da
Música brasileira. 


Koellreutter...
Ousarei me
Entregar
Livremente, sem
Limites, sem
Receios, aos seus
Ensinamentos... para
Um dia
Transcender
Transformar
Emergir
Respirar...

Autor: Célia Bitencourt
Acróstico escrito ao som de
Acronon, composição de Hans-Joachim Koellreutter